Daniel Moreira e Rita Castro Neves

Ficha Técnica

Espanta Diabos, instalação no Núcleo Interpretativo dos Moinhos da Gávea

A primeira vez que entrámos nos Moinhos da Gávea fomos surpreendidos pela presença de um morcego que aí habita. A surpresa foi mútua, e a reação, a esperada.

Aqui como noutros moinhos hidráulicos vimos cruzes e covas. São comuns estas inscrições nos moinhos de água portugueses, pedras graníticas que se marcam para sacralizar o espaço. Atravessando a vida do moinho, as insculturas vão sendo feitas pelos vários moleiros, com o seu instrumento de trabalho: o pico. As composições de grafitos sobrepõe-se marcando as pedras. Cruzes com várias formas e braços, foices e chaves, datas, plantas e outras imagens têm sido objeto de levantamentos e estudos molinológicos, em constelação de signos. Espantar diabos porque a ação se dirige à sacralização do lugar de trabalho. Mas não serão os diabos também os interiores? Picando as paredes do moinho, o moleiro incrusta a sua marca existencial, em celebração de si. Fazer moageiro e representação interligam-se numa atividade que, por natureza, implica longos momentos de espera, transformados em interregnos para a criação.

Pela nossa parte, durante a residência artística, dedicámo-nos a fazer serigrafias, linogravuras e um pequeno filme. Dizia-se das cruzes que espantavam os diabos e que amainavam as destruidoras cheias do rio, protegendo o moleiro dos percalços da sua dura vida e da má fama da profissão. E mesmo se o pão mantém a sua importância alimentar e simbologia de subsistência, as formas deste fazer estão em desuso, e os seus lugares frequentemente ao abandono. De casa de moer a casa de morcego, invocamos no espaço o voo desse outro ser selvagem e maldito, surpreendente mamífero voador, diabo do nosso espanto.

Daniel Moreira e Rita Castro Neves

Daniel Moreira e Rita Castro Neves
Daniel Moreira e Rita Castro Neves
Daniel Moreira e Rita Castro Neves
Daniel Moreira e Rita Castro Neves
Daniel Moreira e Rita Castro Neves