44 anos depois do primeiro dia da utopia que foi, que tem sido, a Bienal Internacional de Arte de Cerveira, é tempo de o mais antigo evento do género na Península Ibérica e uma das mais antigas e relevantes estruturas de programação cultural e artística do país, reconhecida como percursora em assuntos tão importantes como as da descentralização cultural ou da criação de espaços de Liberdade para a apresentação das práticas artísticas de vanguarda a que o país estava vedado por via de uma ditadura, voltar a pensar o mundo e com o mundo.

Em 1993, Antuérpia foi Capital Europeia da Cultura e partiu de uma pergunta como tema agregador de toda a sua programação: “Pode a Arte mudar o mundo?”. O sociólogo alemão Herbert Marcuse (1898–1979) escreveu, na resposta a esta demanda, que “A arte não pode mudar o mundo, mas pode contribuir para a mudança da consciência e impulsos dos homens e mulheres, que poderiam mudar o mundo”1 e, ainda, que “A arte combate a reificação fazendo falar, cantar e talvez dançar o mundo petrificado”2.

Em 2019, no âmbito da sua exposição individual, o dinamarquês-islandês Olafur Eliasson (n.1967), artista cujo projeto artístico manifesta, há mais de 30 anos, preocupações generalizadas com as alterações climáticas e a sustentabilidade do planeta, respondeu à pergunta outrora feita em Antuérpia que acredita mesmo que a arte é um motor de mudança global e que está, aos poucos, a conquistar terreno. Olafur Eliasson defendeu a ideia de que a cultura, num momento em que o mundo é dominado pelos grandes interesses económicos e em que os sistemas democráticos se debatem com crises de confiança, pode constituir-se como uma espécie de parlamento democrático e altruísta (por oposição aos mecanismos egoístas do capitalismo) em que os assuntos “difíceis” podem continuar a ser discutidos.

“Penso que a arte, enquanto sistema cívico, enquanto sistema europeu, enquanto sistema global, pode ajudar a mudar o mundo” , afirmou.3

No dia 9 de outubro de 2019, dia em que John Lennon faria 69 anos, Yoko Ono (n.1933) escrevia na sua página do Twitter “Lembre-se de que cada um de nós tem o poder de mudar o mundo.”4 A japonesa apresenta-se sempre, primeiro, como ativista referindo que a sua atividade artística é um dos meios que tem ao seu dispor para instigar a mudança.

Também em 2019, a edição 58 de La Biennale di Venezia, o mais importante evento mundial desta tipologia, propunha, como tema agregador, “May You Live in Interesting Times", subjetivando sobre este desejo de vivermos, ou não, tempos interessantes.

Para 2021, São Paulo escolheu citar Thiago de Mello (n.1926), poeta e tradutor brasileiro que se tornou numa das vozes de oposição à ditadura militar brasileira (1964–1985), sendo obrigado ao exílio. O livro “Faz escuro mas eu canto: porque a manhã vai chegar” de 1965 é assim o mote da 34ª edição que assume a Arte como o meio privilegiado para a mudança, para a Revolução.

Há décadas que o discurso sobre os movimentos artísticos, os estilos e todo o tipo de categorização deixou de ser pertinente nas discussão sobre as práticas artísticas contemporâneas, bastando que nos recordemos dos processos de dessacralização e desmaterialização pelos quais passou o objeto artístico a partir, sobretudo, das décadas de 1960/70, o que conduziu à democratização dos meios e das tecnologias, por um lado e, por outro, à busca (utópica, talvez) de que as estruturas de criação e programação cultural e artística, independentemente das suas tutelas públicas ou privadas, prestem cada vez mais um serviço público, disponível na globalidade dos territórios e acessível a todos, independentemente da nacionalidade, do credo, enquadramento socioeconómico, género ou idade. É neste pressuposto que a Arte, no centro da discussão sobre os problemas que são de todos nós, assume o desafio de instigar à mudança, lançando, pelo menos, o alerta.

Em 2022, a bienal mais antiga da Península Ibérica e uma das estruturas de programação artística contemporânea mais antigas e relevantes em Portugal, quer também agir e colocar a Arte e os artistas a pensar o mundo e as emergências globais que a todos afetam. Partimos para a demanda inspirados, não apenas por uma geração de artistas e dinamizadores culturais que, no seu tempo, foram capazes de assumir a utopia, como são exemplos Jaime Isidoro (1924–2009), José Rodrigues (1936–2016) ou Henrique Silva (n.1933), mas também alguns dos exemplos internacionais já citados e aos quais poderíamos somar: a americana Jenny Holzer (n.1950) cujas ações e trabalhos cedo refletiram temáticas de confronto como a visão dos países do Ocidente que se autocolocam como superiores do Oriente e exploradores dos recursos existentes nos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, justificando invasões e guerras com falsas contribuições democráticas; ou a, também americana, Cindy Sherman (n.1954), precursora na discussão sobre igualdade e identidade de género. Poderíamos ainda referir a chinesa Lin Tianmiao (n.1961) que usa o seu trabalho, com recurso predominante ao têxtil, para alertar o mundo sobre a gigante e perigosa fábrica de escravatura em que o seu país se tornou. Ou, por fim, a artista afegã Shamsia Hassani (n.1988), a primeira mulher do seu país a dedicar-se à arte em espaço público, que, no dia em que acordamos com a notícia de que o Afeganistão estava sobre domínio dos Talibãs, viu as reproduções das suas obras invadirem as redes sociais e serem o cartaz da indignação global.

Se os artistas da vanguarda, do que designamos por contemporâneo, têm, uma boa parte deles, desenvolvido as suas propostas engajados politicamente (o que é diferente de partidariamente) e usado as suas vozes – entendendo-se as criações artísticas como ações comunicantes, vozes, portanto – para agir, intervir civicamente nos seus contextos, de uma forma global e podendo dar-se exemplos de todas as partes do mundo, porquê que as estruturas de criação e programação, não obstante os seus desejáveis estatutos de autonomia política e Liberdade de opinião e ação, se imiscuem, em alguns casos, do seu papel de ativistas, de educadores de públicos contra a indiferença?

A paquistanesa Malala Yousafzai (n.1997), a quem já foi atribuído o Prémio Nobel da Paz, no seu discurso durante a inauguração da Biblioteca de Birmingham, em 2013, reforça a importância e o papel da educação para mudarmos o mundo: “O conteúdo de um livro guarda o poder da educação e é com esse poder que conseguimos moldar o futuro e mudar vidas.”

Se considerarmos antes a emergência climática e a atualidade de temas como a sustentabilidade, é impossível que não evoquemos a importância de outra jovem ativista, a sueca Greta Thunberg (n.2003) e o seu contributo para colocar na agenda política global as problemáticas associadas ao ambiente. Uma das suas frases icónicas: “You must take action. You must do the impossible. Because giving up is never an option.” é, assim, o mote para o tema da XXII Bienal Internacional de Arte de Cerveira, mudando-se o sujeito para a primeira pessoal do plural: WE MUST TAKE ACTION!

É desta forma, e com especial foco nas questões do ambiente e da sustentabilidade, que a XXII Bienal Internacional de Arte de Cerveira se pretende posicionar, no momento em que assinala uma história de 44 anos e muitas utopias que se tornaram realidade.

A diretora artística, Helena Mendes Pereira


  1. MARCUSE, Herbert – A Dimensão Estética (1977). Lisboa: Edições 70, 2013. Página 36.  ↩︎

  2. MARCUSE, Herbert – A Dimensão Estética (1977). Lisboa: Edições 70, 2013. Páginas 66 a 67.  ↩︎

  3. https://sicnoticias.pt/especiais/revista–do–ano–2019/2019–12–18–Olafur–Eliasson–pode–a–arte–mudar–o–mundo– em 20 de agosto de 2021.  ↩︎

  4. "Remember, each one of us has the power to change the world.”  ↩︎